Você tem uma voz, lembra?, diz um amigo ao narrador a certa altura. Ele precisa lembrar: tem uma voz, deve usá-la, mas nem sempre é simples. Às vezes os dias se arrastam, nós nos arrastamos com eles, fica difícil usar a voz. Este é um livro escrito para isto, então: recuperá-la. Construir um corpo para ela. Conseguir dizer.
Temos um ponto de partida: o narrador é filmado por outro rapaz enquanto transa com ele. O vídeo está publicado na internet. Há consequências com as quais lidar: os efeitos de um encontro, de um registro, de ter o corpo exposto ao público – de encontrar o próprio corpo, no fim das contas.
Este livro é sobre o rapaz que me gravou, diz o narrador. Sabemos, no entanto, que a procura (e a recusa) dessa imagem é também uma investigação de si mesmo. Quando fala do rapaz, é também de si que fala o narrador. É de si que ele fala enquanto persegue os sentidos íntimos, políticos e estéticos de tornar pública uma imagem. Quando põe em xeque o prazer e a violência do sexo, e de quem assiste ao sexo, é daquele rapaz, o do vídeo, que o narrador está falando, sim, mas é também de si próprio – e de nós todos.
Desde o título, estamos diante de um risco, que bom, são mesmo feitos de riscos os grandes projetos. Também é arriscado dizer, por exemplo, se isto consiste numa autobiografia, em ficção, poesia ou ensaio. Somos confrontados com o incômodo das fronteiras, não só dos gêneros e das imagens, mas do próprio pensamento, e com a possibilidade de migrá-lo de A Serbian Film a Lana Del Rey, de Édouard Louis a conteúdos no Privacy. Para se juntarem à conversa, Otávio Campos convida textos, filmes, canções, amigos e outros poetas com quem convive. Embora às vezes tristíssima, esta ainda é a história de uma festa, e eu também participo dela.
Você tem uma voz, lembra? é o eco que fica depois da leitura. É o eco que queremos que permaneça. Afinal, nós, leitores, também temos uma voz. Lembramos que é preciso usá-la, fomos convocados a isso. É também o nosso corpo que aparece na sextape que corremos o risco de encontrar na internet.
_Leonardo Piana