OS LIVROS QUE NÃO LEMOS TAMBÉM CONTAM A NOSSA HISTÓRIA
Convidado Felipe Charbel
Entrevista por Michelle Strzoda
Existe uma biblioteca que carregamos para toda parte. Ela não ocupa espaço nas estantes, não pesa nas mudanças de casa e nem acumula poeira. É a biblioteca dos livros que ainda não lemos. Em Lacunas: Sobre amar os livros que não lemos, Felipe Charbel investiga justamente esse território invisível: os livros adiados, abandonados, desejados ou temidos, que permanecem conosco mesmo quando nunca chegamos ao fim de suas páginas e nem mesmo ao início. Entre ensaio, memória e reflexão literária, o autor propõe uma pergunta provocadora: até que ponto somos formados não apenas pelas leituras que fizemos, mas também pelas que deixamos para depois?
Nesta entrevista à Relicário, Charbel fala sobre a relação entre literatura e vida, as “lacunas amorosas”, o esquecimento como parte da experiência leitora e o modo como os livros — lidos ou não — ajudam a moldar nossa memória e nossa identidade.
Lançamento no Rio de Janeiro >> Felipe Charbel participa de uma conversa com a escritora Ieda Magri, autora de Xaxim (Autêntica Contemporânea), com mediação da jornalista Claudia Lamego.
Relicário: Em Lacunas, você defende que um leitor também é feito de espaços vazios. Como surgiu o estalo de olhar para a “não leitura” não como uma culpa ou falha, mas como um elemento formador da nossa identidade literária?
Felipe Charbel: Surgiu justamente do embaraço, de certo pudor que sinto toda vez que alguém me pergunta de um livro que eu ainda não li. E são muitos! Até que um dia, conversando com um amigo, percebi que nos apegávamos às lacunas de um jeito até maior do que pelas leituras que fizemos em algum momento da vida. É que as leituras tendem a se apagar com o tempo: o comum é que sobre muito pouco delas, principalmente se já somos leitores de longa data. Já as lacunas não se apagam nunca, elas grudam nas paredes da memória e não soltam mais. Achei que valia a pena investigar o que eu sentia em relação a esses livros que não saíam da minha cabeça mesmo que eu não tivesse lido mais do que umas poucas páginas de cada um deles. Em busca do tempo perdido, por exemplo, tinha se tornado uma espécie de “lacuna supersticiosa”, já que todas as vezes que fui ler o romance algo me interrompeu, me desviou da leitura. Já Ao farol eu enquadrei em outra categoria: a “evasão do difícil”, que tem a ver com deixar para depois, ir protelando até encontrar, no futuro, as melhores condições para percorrer essas páginas. Foi assim que comecei a investigar as minhas lacunas literárias.
Relicário: O livro traz uma frase instigante: “Carregamos a nossa biblioteca particular de lacunas por todo canto – ela é portátil.” Ou seja, ela não pesa nada. Como essa leveza da biblioteca invisível tensiona com o peso físico e geográfico das estantes da nossa casa?
FC: Eu adoro a ideia de ter uma boa biblioteca em casa, sou um frequentador de sebos e um comprador compulsivo de livros. Mas qualquer viajante sabe que trazer livros numa mala de viagem é um problema. Quando nos mudamos de endereço, transportar os livros é sempre uma dor de cabeça… É impossível pensar numa biblioteca física sem levar em conta o fator peso. Mas existe outro tipo de biblioteca, mais fluida, que tem como matéria-prima o nosso desejo pelo encontro com certos livros. É o que chamo de biblioteca de lacunas.
Relicário: Você transita com muita naturalidade entre o ensaio, a memória, o diário e a reflexão teórica. Para você, de que maneira esse formato híbrido se tornou o terreno ideal para investigar um tema tão fugidio quanto o vazio e a perda?
FC: Escrevi os ensaios de Lacunasnos intervalos da escrita do Saia da frente do meu sol, na verdade vejo esses livros como dois lados de um mesmo projeto, que tem a ver com uma exploração ao mesmo tempo ensaística e narrativa da memória. Em Lacunaso foco está na relação entre literatura e vida. Mais precisamente, em como vida e a memória ganham forma, por um lado, a partir das leituras que fizemos, e por outro das leituras que ainda não fizemos, mas temos vontade de fazer um dia. Às vezes uma leitura é capaz de abrir um túnel no cimento do cotidiano, permitindo que o passado ganhe forma de um jeito inesperado. Foi o que aconteceu comigo quando li Gerald Murnane pela primeira vez, um livro de memórias chamado Something for the pain. Tudo ali levava à minha infância e ao meu avô, que morreu quando eu tinha apenas 7 anos. O segundo ensaio do livro, “Algo para minha dor”, trata do retorno desse avô que foi uma lacuna para mim, mas que voltou à vida na leitura das memórias do turfe de um escritor australiano que eu lia pela primeira vez. Nesse caso, o preenchimento de uma lacuna literária levou ao preenchimento de uma lacuna da minha vida, aquele avô com quem convivi pouquíssimo.
Relicário: No livro, você aponta que a vida ganha forma a partir das leituras — tanto as que grudaram na gente quanto as que jamais faremos. Na sua opinião, como as leituras que nunca aconteceram conseguem dar forma à nossa realidade?
FC: Lacunasparte de uma distinção entre as lacunas formativas e as lacunas amorosas. As lacunas formativas são os livros que sentimos que devemos ler para nos tornarmos leitores melhores, as obras canônicas, e não importa qual a ideia de cânone que nos mobiliza em determinados momentos da vida. Já as lacunas amorosas têm a ver com desejo: são as leituras que deixamos para depois por acreditar que elas nos farão felizes no futuro. São promessas de prazer. Quando digo que as leituras que ainda não fizemos nos definem tanto quanto os livros que já lemos, tenho em mente são as lacunas amorosas. E elas podem ganhar muitas formas. Trago algumas delas no livro: a lacuna interessada, a lacuna como presente que nos ofertamos, a promessa do tédio, a lacuna supersticiosa, a leitura fracassada, a evasão do difícil, as aversões imprescindíveis, a lacuna obstinada, a monogamia literária, a chegada tardia. Porque a aversão, a implicância, o tédio e o sentido de fracasso também são variedades do amor pelos livros, estão na ordem do desejo, mais que do dever. Mas isso sou eu com as minhas lacunas, é a minha tipologia. Cada pessoa tem as suas razões muito justas para não ter lido o que preferiu não ler. É por isso que a tipologia das lacunas amorosas está sempre mudando, e cada pessoa pode descobrir quais são as suas.
Relicário: Ler e esquecer também é uma forma de criar lacunas. O esquecimento literário te assusta ou você o enxerga como parte desse ecossistema que compõe o DNA da leitura?
FC: É claro que o esquecimento assusta, principalmente quando vem associado ao envelhecimento. No último ensaio do livro, chamado “Leituras tardias”, tento pensar a relação entre leitura e corpo. Com o passar dos anos, vai ficando mais difícil se lembrar do que lemos. Na página dois nos esquecemos do que foi lido na página 1. Pegamos um romance na nossa biblioteca e notamos que ele está sublinhado, mas mal nos lembramos daqueles personagens. É como se a musculatura da memória fosse se atrofiando com os anos. Reconhecer que é assim, que não temos muito o que fazer em relação a isso, é também um modo de nos reconciliar com as lacunas, já que, no fim das contas, o estado de vazio, a ausência, é o ponto ao qual toda leitura vai acabar retornando um dia.
Felipe Charbel é escritor, ensaísta, professor de teoria da história na UFRJ. Publicou os romances Saia da frente do meu sol (Autêntica Contemporânea, 2023) e Janelas irreais – um diário de releituras (Relicário, 2018), traduzidos para o espanhol na Argentina e no Chile. Também é autor dos livros de ensaios Dia após dia após dia – ler e escrever diários (Papéis Selvagens, 2025) e Timoneiros: retórica, prudência e história em Maquiavel e Guicciardini (Ed. Unicamp, 2010), além da plaquete Exercício para melhorar o meu diário (Mapalab, 2025). Colaborou para revistas como piauí, serrote, Quatro cinco um e Morel, e co-organizou as coletâneas Experimento aberto: invenções no ensaio e na crítica e Leituras do contemporâneo: literatura e crítica no Brasil e na Argentina (ambas pela Relicário, 2021), e As formas do romance: estudos sobre a historicidade da literatura (Ponteio, 2016).
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COLUNA EXPERIMENTO ABERTO
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Convidado Felipe Charbel
Entrevista por Michelle Strzoda
Existe uma biblioteca que carregamos para toda parte. Ela não ocupa espaço nas estantes, não pesa nas mudanças de casa e nem acumula poeira. É a biblioteca dos livros que ainda não lemos. Em Lacunas: Sobre amar os livros que não lemos, Felipe Charbel investiga justamente esse território invisível: os livros adiados, abandonados, desejados ou temidos, que permanecem conosco mesmo quando nunca chegamos ao fim de suas páginas e nem mesmo ao início. Entre ensaio, memória e reflexão literária, o autor propõe uma pergunta provocadora: até que ponto somos formados não apenas pelas leituras que fizemos, mas também pelas que deixamos para depois?
Nesta entrevista à Relicário, Charbel fala sobre a relação entre literatura e vida, as “lacunas amorosas”, o esquecimento como parte da experiência leitora e o modo como os livros — lidos ou não — ajudam a moldar nossa memória e nossa identidade.
Lançamento no Rio de Janeiro >> Felipe Charbel participa de uma conversa com a escritora Ieda Magri, autora de Xaxim (Autêntica Contemporânea), com mediação da jornalista Claudia Lamego.
Relicário: Em Lacunas, você defende que um leitor também é feito de espaços vazios. Como surgiu o estalo de olhar para a “não leitura” não como uma culpa ou falha, mas como um elemento formador da nossa identidade literária?
Felipe Charbel: Surgiu justamente do embaraço, de certo pudor que sinto toda vez que alguém me pergunta de um livro que eu ainda não li. E são muitos! Até que um dia, conversando com um amigo, percebi que nos apegávamos às lacunas de um jeito até maior do que pelas leituras que fizemos em algum momento da vida. É que as leituras tendem a se apagar com o tempo: o comum é que sobre muito pouco delas, principalmente se já somos leitores de longa data. Já as lacunas não se apagam nunca, elas grudam nas paredes da memória e não soltam mais. Achei que valia a pena investigar o que eu sentia em relação a esses livros que não saíam da minha cabeça mesmo que eu não tivesse lido mais do que umas poucas páginas de cada um deles. Em busca do tempo perdido, por exemplo, tinha se tornado uma espécie de “lacuna supersticiosa”, já que todas as vezes que fui ler o romance algo me interrompeu, me desviou da leitura. Já Ao farol eu enquadrei em outra categoria: a “evasão do difícil”, que tem a ver com deixar para depois, ir protelando até encontrar, no futuro, as melhores condições para percorrer essas páginas. Foi assim que comecei a investigar as minhas lacunas literárias.
Relicário: O livro traz uma frase instigante: “Carregamos a nossa biblioteca particular de lacunas por todo canto – ela é portátil.” Ou seja, ela não pesa nada. Como essa leveza da biblioteca invisível tensiona com o peso físico e geográfico das estantes da nossa casa?
FC: Eu adoro a ideia de ter uma boa biblioteca em casa, sou um frequentador de sebos e um comprador compulsivo de livros. Mas qualquer viajante sabe que trazer livros numa mala de viagem é um problema. Quando nos mudamos de endereço, transportar os livros é sempre uma dor de cabeça… É impossível pensar numa biblioteca física sem levar em conta o fator peso. Mas existe outro tipo de biblioteca, mais fluida, que tem como matéria-prima o nosso desejo pelo encontro com certos livros. É o que chamo de biblioteca de lacunas.
FC: Escrevi os ensaios de Lacunas nos intervalos da escrita do Saia da frente do meu sol, na verdade vejo esses livros como dois lados de um mesmo projeto, que tem a ver com uma exploração ao mesmo tempo ensaística e narrativa da memória. Em Lacunas o foco está na relação entre literatura e vida. Mais precisamente, em como vida e a memória ganham forma, por um lado, a partir das leituras que fizemos, e por outro das leituras que ainda não fizemos, mas temos vontade de fazer um dia. Às vezes uma leitura é capaz de abrir um túnel no cimento do cotidiano, permitindo que o passado ganhe forma de um jeito inesperado. Foi o que aconteceu comigo quando li Gerald Murnane pela primeira vez, um livro de memórias chamado Something for the pain. Tudo ali levava à minha infância e ao meu avô, que morreu quando eu tinha apenas 7 anos. O segundo ensaio do livro, “Algo para minha dor”, trata do retorno desse avô que foi uma lacuna para mim, mas que voltou à vida na leitura das memórias do turfe de um escritor australiano que eu lia pela primeira vez. Nesse caso, o preenchimento de uma lacuna literária levou ao preenchimento de uma lacuna da minha vida, aquele avô com quem convivi pouquíssimo.
Relicário: No livro, você aponta que a vida ganha forma a partir das leituras — tanto as que grudaram na gente quanto as que jamais faremos. Na sua opinião, como as leituras que nunca aconteceram conseguem dar forma à nossa realidade?
FC: Lacunas parte de uma distinção entre as lacunas formativas e as lacunas amorosas. As lacunas formativas são os livros que sentimos que devemos ler para nos tornarmos leitores melhores, as obras canônicas, e não importa qual a ideia de cânone que nos mobiliza em determinados momentos da vida. Já as lacunas amorosas têm a ver com desejo: são as leituras que deixamos para depois por acreditar que elas nos farão felizes no futuro. São promessas de prazer. Quando digo que as leituras que ainda não fizemos nos definem tanto quanto os livros que já lemos, tenho em mente são as lacunas amorosas. E elas podem ganhar muitas formas. Trago algumas delas no livro: a lacuna interessada, a lacuna como presente que nos ofertamos, a promessa do tédio, a lacuna supersticiosa, a leitura fracassada, a evasão do difícil, as aversões imprescindíveis, a lacuna obstinada, a monogamia literária, a chegada tardia. Porque a aversão, a implicância, o tédio e o sentido de fracasso também são variedades do amor pelos livros, estão na ordem do desejo, mais que do dever. Mas isso sou eu com as minhas lacunas, é a minha tipologia. Cada pessoa tem as suas razões muito justas para não ter lido o que preferiu não ler. É por isso que a tipologia das lacunas amorosas está sempre mudando, e cada pessoa pode descobrir quais são as suas.
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Felipe Charbel é escritor, ensaísta, professor de teoria da história na UFRJ. Publicou os romances Saia da frente do meu sol (Autêntica Contemporânea, 2023) e Janelas irreais – um diário de releituras (Relicário, 2018), traduzidos para o espanhol na Argentina e no Chile. Também é autor dos livros de ensaios Dia após dia após dia – ler e escrever diários (Papéis Selvagens, 2025) e Timoneiros: retórica, prudência e história em Maquiavel e Guicciardini (Ed. Unicamp, 2010), além da plaquete Exercício para melhorar o meu diário (Mapalab, 2025). Colaborou para revistas como piauí, serrote, Quatro cinco um e Morel, e co-organizou as coletâneas Experimento aberto: invenções no ensaio e na crítica e Leituras do contemporâneo: literatura e crítica no Brasil e na Argentina (ambas pela Relicário, 2021), e As formas do romance: estudos sobre a historicidade da literatura (Ponteio, 2016).
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