Às vésperas de eventos em sua homenagem nos 30 anos de sua partida, a coordenadora da Coleção Marguerite Duras fala da sua relação com uma das mais prestigiadas vozes da literatura. Luciene é co-organizadora – com Mauricio Ayer (UnB) e Cristina Kuntz (USP) – do Colóquio Internacional Marguerite Duras, que acontece de 18 a 20 de maio no Centro MariAntonia, e uma das convidadas para o encontro e lançamento de A doença da morte, novo título da Coleção MD, na livraria Gato Sem Rabo, em São Paulo, dia 19 de maio.
Desde que descobri a obra de Marguerite Duras em 2014, ano do seu centenário de nascimento, ao escutar uma conferência da jornalista e biógrafa Laure Adler no Salão do Livro de Québec, nunca mais parei de ler sua obra. Foi quando a leitora que me tornei precisou distanciar o olhar apaixonado para outro mais apurado de pesquisadora. Tanto a voz off do seu cinema quanto as vozes das mulheres silenciadas da sua obra me atravessam e continuam me interpelando. Eis o privilégio de poder então coordenar na Relicário a coleção que leva o seu nome.
O exercício do fascínio
Nos últimos anos da vida de Marguerite Duras, uma jornalista italiana lhe perguntou sobre as razões que a levaram a escrever. A resposta veio sem hesitação: a do desprendimento e a absoluta entrega à fascinação que a literatura exercia sobre ela.
Lembramos esses 30 anos de sua morte com a feliz coincidência dos 5 anos da Coleção Marguerite Duras, iniciada com Escrever, livro que em que é marcante a libertação pela escrita.
Em seguida, ler é também se calar diante de Hiroshima meu amor, dos amores incomensuráveis enquanto a memória coletiva do horror de Hiroshima tentava se restabelecer. Amores que oscilam pulsões de vida e morte, em Moderato Cantabile, Olhos azuis cabelos pretos e A puta da Costa normanda. Na loucura e no arrebatamento de Lol V. Stein.
E ainda a contemplação do mar, um tema nobre na obra durassiana, embalada pelos acontecimentos do noticiário internacional e do cotidiano à beira-mar na França em O Verão de 80. O jogo feminino de sedução e devastação em Destruir, diz ela – isso para aqui trazermos um breve panorama das muitas ações, edições, eventos, diálogos, colaborações e revelações pelas quais passamos nesses cinco anos de coleção!
Não foi pouca coisa. Os 5 anos da Coleção Marguerite Duras são celebrados por nós, leitores, tradutores e colaboradores, no resgate tanto dos aficionados que se deparam com retraduções, publicações inéditas e textos críticos da obra quanto na conquista de novos entusiastas de Marguerite.
Todos esses títulos da coleção vêm preenchendo a lacuna da ausência de Duras e resgatando a obra dessa incontornável escritora no Brasil. Enquanto isso, celebremos também a chegada de A doença da morte, um romance que se localiza na síntese da variação de um mesmo tema: um amor impossível, calcado na incompatibilidade do desejo, na incomunicabilidade desse mesmo desejo desconhecido dos corpos e da idealização da volúpia feminina.
Assim é Duras, uma autora que foi muitas, cuja vida foi dedicada à criação e uma literatura que suscita várias reticências. Nós, leitores, arrebatados por sua escrita e obsessivos pelas respostas, que muitas vezes encontramos em nós mesmos, tentamos preencher as lacunas do seu texto.
Luciene Guimarães de Oliveira é doutora em Littérature et arts de la scène et de l’écran pela Université Laval, no Canadá. Tradutora de Escrever, primeiro título da Coleção Marguerite Duras, da qual também assina a coordenação.
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COLUNA GABINETE DE CURIOSIDADES
O MAR, O DESEJO E A ESCRITA
O arrebatamento contínuo de Marguerite Duras
por Luciene Guimarães de Oliveira
Às vésperas de eventos em sua homenagem nos 30 anos de sua partida, a coordenadora da Coleção Marguerite Duras fala da sua relação com uma das mais prestigiadas vozes da literatura. Luciene é co-organizadora – com Mauricio Ayer (UnB) e Cristina Kuntz (USP) – do Colóquio Internacional Marguerite Duras, que acontece de 18 a 20 de maio no Centro MariAntonia, e uma das convidadas para o encontro e lançamento de A doença da morte, novo título da Coleção MD, na livraria Gato Sem Rabo, em São Paulo, dia 19 de maio.
Desde que descobri a obra de Marguerite Duras em 2014, ano do seu centenário de nascimento, ao escutar uma conferência da jornalista e biógrafa Laure Adler no Salão do Livro de Québec, nunca mais parei de ler sua obra. Foi quando a leitora que me tornei precisou distanciar o olhar apaixonado para outro mais apurado de pesquisadora. Tanto a voz off do seu cinema quanto as vozes das mulheres silenciadas da sua obra me atravessam e continuam me interpelando. Eis o privilégio de poder então coordenar na Relicário a coleção que leva o seu nome.
O exercício do fascínio
Nos últimos anos da vida de Marguerite Duras, uma jornalista italiana lhe perguntou sobre as razões que a levaram a escrever. A resposta veio sem hesitação: a do desprendimento e a absoluta entrega à fascinação que a literatura exercia sobre ela.
Em seguida, ler é também se calar diante de Hiroshima meu amor, dos amores incomensuráveis enquanto a memória coletiva do horror de Hiroshima tentava se restabelecer. Amores que oscilam pulsões de vida e morte, em Moderato Cantabile, Olhos azuis cabelos pretos e A puta da Costa normanda. Na loucura e no arrebatamento de Lol V. Stein.
E ainda a contemplação do mar, um tema nobre na obra durassiana, embalada pelos acontecimentos do noticiário internacional e do cotidiano à beira-mar na França em O Verão de 80. O jogo feminino de sedução e devastação em Destruir, diz ela – isso para aqui trazermos um breve panorama das muitas ações, edições, eventos, diálogos, colaborações e revelações pelas quais passamos nesses cinco anos de coleção!
Não foi pouca coisa. Os 5 anos da Coleção Marguerite Duras são celebrados por nós, leitores, tradutores e colaboradores, no resgate tanto dos aficionados que se deparam com retraduções, publicações inéditas e textos críticos da obra quanto na conquista de novos entusiastas de Marguerite.
Todos esses títulos da coleção vêm preenchendo a lacuna da ausência de Duras e resgatando a obra dessa incontornável escritora no Brasil. Enquanto isso, celebremos também a chegada de A doença da morte, um romance que se localiza na síntese da variação de um mesmo tema: um amor impossível, calcado na incompatibilidade do desejo, na incomunicabilidade desse mesmo desejo desconhecido dos corpos e da idealização da volúpia feminina.
Assim é Duras, uma autora que foi muitas, cuja vida foi dedicada à criação e uma literatura que suscita várias reticências. Nós, leitores, arrebatados por sua escrita e obsessivos pelas respostas, que muitas vezes encontramos em nós mesmos, tentamos preencher as lacunas do seu texto.
Luciene Guimarães de Oliveira é doutora em Littérature et arts de la scène et de l’écran pela Université Laval, no Canadá. Tradutora de Escrever, primeiro título da Coleção Marguerite Duras, da qual também assina a coordenação.
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