UM BOM LIVRO É UM POUCO REVISTA CARAS, UM POUCO TÉCNICA, MAS O QUE EU QUERIA DIZER MESMO É QUE NUNCA MAIS BEIJEI NINGUÉM
Tudo começa com uma história que poderia ser contada como fofoca: depois de um encontro sexual, o narrador descobre que foi filmado e que o vídeo circula na internet. Em Se o cara da sextape a que você assistiu se parece comigo é porque sou eu mesmo, Otávio Campos usa essa curiosidade inicial para colocar quem lê diante de perguntas sobre desejo, consentimento e o poder de olhar.
No texto a seguir, o autor abre os bastidores da escrita e conta como fez da dúvida entre o vivido e o inventado uma maneira de fazer o chão tremer sob os pés do leitor. A conversa continua nos lançamentos do livro, sempre às 19h: no Rio de Janeiro, em 16 de novembro (segunda), Otávio conversa com André Capilé e Thallys Braga, com mediação de Rodrigo Batista, na Janela Livraria Laranjeiras; em São Paulo, em 18 de novembro (quarta), a conversa é com Amara Moira, com mediação de Bárbara Krauss, na Livraria Simples; e em Juiz de Fora, dia 21 de novembro (sábado), o autor conversa com Prisca Agustoni, com mediação de Thiago Mattos, na Casa Macondo.
por Otávio Campos
Tenho uma mania estranha e recorrente ao começar um texto, que é dizer o que quero fazer, como se o texto fosse uma possibilidade e não uma afirmação. Agora, por exemplo, ao invés de iniciar com: “Entre o momento em que comecei a escrever Se o cara da sextape… até hoje, com o livro chegando às livrarias, muitas coisas aconteceram” — o que anunciaria seu assunto —, eu pensei em fazer outra coisa. Meu ímpeto é escrever: “Gostaria de começar esse textodizendo que quero falar sobre tudo que está entre o momento em que comecei a escrever o livro e o momento de agora, em que ele está quase publicado”.
Pode parecer simples, e também uma ferramenta confortável para o escritor, simplificando um processo muitas vezes árduo, o “como começar”. Mas, além disso, penso que essa forma apresenta ao leitor o texto como material, como algo que está sendo enunciado, não uma coisa pronta que ele deve apenas ler e contemplar. É quase como dizer: “Veja bem, isso aqui é um texto. Isso aqui é um texto que eu estou escrevendo, estou escrevendo diante de você, que irá lê-lo agora”. Isso me dá a sensação de que estou mostrando a quem olha o revés da máquina a ser vista, o seu funcionamento. Penso que isso é um chamamento ao leitor na sua intimidade, que se coloca do lado de quem escreve, como se escrevesse também, vivesse também o que quero contar. Assim, posso jogar com ele, o texto pode ser uma coisa nossa, minha e dele, ainda que não seja verdade.
Dessa forma, veja onde estamos. Quero dizer agora que esse texto não é sobre o que aconteceu antes, durante e depois do livro, isso era só um artifício. Esse texto é sobre este procedimento, que, para mim, revela um tanto o que tentei no Se o cara da sextape a que você assistiu se parece comigo é porque sou eu mesmo. Me agrada acreditar que, mais do que contar uma história, o livro pode performar, agir. Mais do que um objeto estético e contemplativo, quero pensar o livro como um material que pode atuar sobre a realidade. E isso, é claro, depende daquilo que não consigo controlar: quem o lê.
Quando comecei a escrever o livro, eu estava na UFJF, dando aula de Criação Literária para os alunos da pós-graduação em Letras. Eu tentava defender a criação literária como um campo de saber, como um lugar para pensar e produzir conhecimento, e lutar para que o campo científico conseguisse reconhecer nessa dimensão alguma utilidade (com toda a violência que essa palavra pode assumir para a literatura, mas a universidade, o cientificismo e, principalmente, o financiamento à pesquisa no Brasil são, sobretudo, violentos). Mas era complicado — porque aquilo ainda era novo — convencer os alunos (esses que já haviam passado pela graduação em Letras e, em alguns casos, até pelo mestrado) de que uma disciplina de criação era mais do que mostrar aos colegas o que se quer e se pode escrever. Era necessário propor e defender que escrever implica pensar uma técnica, que era preciso destrinchá-la.
O livro começou a ser feito aí, não a história, mas o objeto. Primeiro, é claro, há a história, porque a literatura é isso, e eu quero sempre contar uma história. As pessoas também querem ouvir uma história. Eu estava ainda no campo mais arriscado possível, que é o da escrita em primeira pessoa. Tanto tem se feito, se falado, se criticado e elogiado isso hoje em dia, graças não apenas à invasão da autoficção francesa no Brasil, mas também às redes sociais, à sua dinâmica autocentrada e à possibilidade de narrar a própria vida o tempo todo (o que nada tem a ver com literatura, mas engana bem e prejudica bastante nosso estudo; mas não entrarei nisso agora). Nesse lugar, então, eu queria pensar em uma narrativa que, ainda que partisse do eu que escreve e se assumisse assim, não se encerrasse nele e no particular, mas pudesse se tornar literatura; que, mais do que chamar o leitor, o trouxesse para dentro da história.
Em Se o cara da sextape…, parto de um assunto polêmico, contemporâneo e íntimo: a história da exposição nas redes de um vídeo do narrador (que vou chamar de eu) por um eventual parceiro sexual. Isso aparece quase como uma fofoca, como uma dessas histórias pessoais que alguém facilmente contaria em sua rede social. Mas o livro não é só a história dessa exposição; é também o uso desse fato para que o narrador, que no início captura o leitor pelo pacto da intimidade, possa colocá-lo diante de algumas questões sobre consentimento, exposição e o uso do sexo como ferramenta de controle. Não sei se ele sabe disso quando entra, nem se sabe quando termina o livro, mas quero acreditar que embarca, principalmente porque a narrativa se fragmenta, a fofoca está contada pela metade, e é importante que ele sinta mesmo que é uma fofoca.
Eu sempre digo aos alunos que um bom livro, para o que eu quero dele, é um pouco revista Caras e um pouco técnica. Depois que capturamos o leitor pela fofoca, ele vem porque eu assumo que aquilo aconteceu comigo, que o cara da sextape sou eu mesmo. Eu uso nomes reais, assuntos reais, fotos cuja veracidade pode ser facilmente comprovada. E aí vem o impasse diante do furo no real: É realmente verdade tudo o que está escrito? Quanto mais a realidade aparece como absoluta, mais ele percebe que está diante de um livro, diante da vida, e precisa tomar uma posição. É justamente aí que quero que ele julgue o que o livro conta, que discorde, que se veja, que desconfie da posição que assumiu diante daquela história. Que pense também: mas isso é uma história, não a vida.
Claro, isso sou eu pensando o que quero e tentando, pela técnica que pesquiso e proponho, fazer o que posso diante do incontrolável, que é o leitor. Mas é tudo o que posso fazer, mesmo que para isso eu tenha que me expor completamente, contar detalhes de uma relação sexual filmada, colocada no Privacy pelo parceiro que nem conheço direito, me humilhar e sentir tesão com isso. É o preço, o sacrifício, para fazer com que o livro guie o leitor para onde quero. Para que ele se pergunte, como eu mesmo me pergunto agora, se isso aconteceu mesmo. E pouco importa. Mas é nesse lugar, em que o livro não se permite assumir como real ou inventado, entre romance e ensaio, que é possível criar a única coisa que posso como autor: um terremoto. Se o leitor sentir, o mínimo que seja, o chão sacudir; pensar, mesmo que de relance, que não sabe onde está nem o que lê; desconfiar, por conta disso, do que entende por realidade e ficção (porque sabe que é tudo apenas um jeito de ler qualquer coisa), para mim o livro já funcionou.
Quando o Leonardo Piana leu o livro para escrever o texto de orelha, ele me mandou uma mensagem: “Achei muito desconfortável”. Eu sorri satisfeito, mesmo antes de ele mandar a seguir: “Eu gostei muito!”. O que eu queria saber, na verdade, mas nunca vou perguntar, é se esse desconforto produziria alguma medição num sismógrafo, mas isso é besteira. Talvez ele nunca tenha dito nada, e isso não importa muito, porque vocês sabem que o Leonardo escreveu a orelha, então toda essa história é real. E eu queria terminar esse texto dizendo exatamente isso: entre o dia em que comecei a escrever o livro e esse momento de agora, inventei diversas outras coisas, outras aconteceram de verdade, mas nunca mais beijei ninguém. Você quer mesmo saber o que aconteceu?
Otávio Campos é escritor, editor e professor. Publicou, entre outros, A música mais triste do mundo (2023), Tatear os destroços depois do acidente (2022) e Ao jeito dos bichos caçados (2018). Fez pós-doutorado em criação literária pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), cuja pesquisa se desdobrou neste livro.
UMA FORMA DE CORAGEM PARA A ESCRITA por Rafael Gallo Tem sido difícil escrever. Não há uma Grande Guerra em curso, ninguém que eu amo foi tirado de mim, nem tenho sido presa de algum vício, mas ainda assim tem sido difícil escrever. Provavelmente, por viver tempos nos quais a ameaça à vida se …
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COLUNA LIVRE
UM BOM LIVRO É UM POUCO REVISTA CARAS, UM POUCO TÉCNICA,
MAS O QUE EU QUERIA DIZER MESMO É QUE NUNCA MAIS BEIJEI NINGUÉM
Tudo começa com uma história que poderia ser contada como fofoca: depois de um encontro sexual, o narrador descobre que foi filmado e que o vídeo circula na internet. Em Se o cara da sextape a que você assistiu se parece comigo é porque sou eu mesmo, Otávio Campos usa essa curiosidade inicial para colocar quem lê diante de perguntas sobre desejo, consentimento e o poder de olhar.
No texto a seguir, o autor abre os bastidores da escrita e conta como fez da dúvida entre o vivido e o inventado uma maneira de fazer o chão tremer sob os pés do leitor. A conversa continua nos lançamentos do livro, sempre às 19h: no Rio de Janeiro, em 16 de novembro (segunda), Otávio conversa com André Capilé e Thallys Braga, com mediação de Rodrigo Batista, na Janela Livraria Laranjeiras; em São Paulo, em 18 de novembro (quarta), a conversa é com Amara Moira, com mediação de Bárbara Krauss, na Livraria Simples; e em Juiz de Fora, dia 21 de novembro (sábado), o autor conversa com Prisca Agustoni, com mediação de Thiago Mattos, na Casa Macondo.
por Otávio Campos
Tenho uma mania estranha e recorrente ao começar um texto, que é dizer o que quero fazer, como se o texto fosse uma possibilidade e não uma afirmação. Agora, por exemplo, ao invés de iniciar com: “Entre o momento em que comecei a escrever Se o cara da sextape… até hoje, com o livro chegando às livrarias, muitas coisas aconteceram” — o que anunciaria seu assunto —, eu pensei em fazer outra coisa. Meu ímpeto é escrever: “Gostaria de começar esse texto dizendo que quero falar sobre tudo que está entre o momento em que comecei a escrever o livro e o momento de agora, em que ele está quase publicado”.
Pode parecer simples, e também uma ferramenta confortável para o escritor, simplificando um processo muitas vezes árduo, o “como começar”. Mas, além disso, penso que essa forma apresenta ao leitor o texto como material, como algo que está sendo enunciado, não uma coisa pronta que ele deve apenas ler e contemplar. É quase como dizer: “Veja bem, isso aqui é um texto. Isso aqui é um texto que eu estou escrevendo, estou escrevendo diante de você, que irá lê-lo agora”. Isso me dá a sensação de que estou mostrando a quem olha o revés da máquina a ser vista, o seu funcionamento. Penso que isso é um chamamento ao leitor na sua intimidade, que se coloca do lado de quem escreve, como se escrevesse também, vivesse também o que quero contar. Assim, posso jogar com ele, o texto pode ser uma coisa nossa, minha e dele, ainda que não seja verdade.
Quando comecei a escrever o livro, eu estava na UFJF, dando aula de Criação Literária para os alunos da pós-graduação em Letras. Eu tentava defender a criação literária como um campo de saber, como um lugar para pensar e produzir conhecimento, e lutar para que o campo científico conseguisse reconhecer nessa dimensão alguma utilidade (com toda a violência que essa palavra pode assumir para a literatura, mas a universidade, o cientificismo e, principalmente, o financiamento à pesquisa no Brasil são, sobretudo, violentos). Mas era complicado — porque aquilo ainda era novo — convencer os alunos (esses que já haviam passado pela graduação em Letras e, em alguns casos, até pelo mestrado) de que uma disciplina de criação era mais do que mostrar aos colegas o que se quer e se pode escrever. Era necessário propor e defender que escrever implica pensar uma técnica, que era preciso destrinchá-la.
O livro começou a ser feito aí, não a história, mas o objeto. Primeiro, é claro, há a história, porque a literatura é isso, e eu quero sempre contar uma história. As pessoas também querem ouvir uma história. Eu estava ainda no campo mais arriscado possível, que é o da escrita em primeira pessoa. Tanto tem se feito, se falado, se criticado e elogiado isso hoje em dia, graças não apenas à invasão da autoficção francesa no Brasil, mas também às redes sociais, à sua dinâmica autocentrada e à possibilidade de narrar a própria vida o tempo todo (o que nada tem a ver com literatura, mas engana bem e prejudica bastante nosso estudo; mas não entrarei nisso agora). Nesse lugar, então, eu queria pensar em uma narrativa que, ainda que partisse do eu que escreve e se assumisse assim, não se encerrasse nele e no particular, mas pudesse se tornar literatura; que, mais do que chamar o leitor, o trouxesse para dentro da história.
Em Se o cara da sextape…, parto de um assunto polêmico, contemporâneo e íntimo: a história da exposição nas redes de um vídeo do narrador (que vou chamar de eu) por um eventual parceiro sexual. Isso aparece quase como uma fofoca, como uma dessas histórias pessoais que alguém facilmente contaria em sua rede social. Mas o livro não é só a história dessa exposição; é também o uso desse fato para que o narrador, que no início captura o leitor pelo pacto da intimidade, possa colocá-lo diante de algumas questões sobre consentimento, exposição e o uso do sexo como ferramenta de controle. Não sei se ele sabe disso quando entra, nem se sabe quando termina o livro, mas quero acreditar que embarca, principalmente porque a narrativa se fragmenta, a fofoca está contada pela metade, e é importante que ele sinta mesmo que é uma fofoca.
Eu sempre digo aos alunos que um bom livro, para o que eu quero dele, é um pouco revista Caras e um pouco técnica. Depois que capturamos o leitor pela fofoca, ele vem porque eu assumo que aquilo aconteceu comigo, que o cara da sextape sou eu mesmo. Eu uso nomes reais, assuntos reais, fotos cuja veracidade pode ser facilmente comprovada. E aí vem o impasse diante do furo no real: É realmente verdade tudo o que está escrito? Quanto mais a realidade aparece como absoluta, mais ele percebe que está diante de um livro, diante da vida, e precisa tomar uma posição. É justamente aí que quero que ele julgue o que o livro conta, que discorde, que se veja, que desconfie da posição que assumiu diante daquela história. Que pense também: mas isso é uma história, não a vida.
Claro, isso sou eu pensando o que quero e tentando, pela técnica que pesquiso e proponho, fazer o que posso diante do incontrolável, que é o leitor. Mas é tudo o que posso fazer, mesmo que para isso eu tenha que me expor completamente, contar detalhes de uma relação sexual filmada, colocada no Privacy pelo parceiro que nem conheço direito, me humilhar e sentir tesão com isso. É o preço, o sacrifício, para fazer com que o livro guie o leitor para onde quero. Para que ele se pergunte, como eu mesmo me pergunto agora, se isso aconteceu mesmo. E pouco importa. Mas é nesse lugar, em que o livro não se permite assumir como real ou inventado, entre romance e ensaio, que é possível criar a única coisa que posso como autor: um terremoto. Se o leitor sentir, o mínimo que seja, o chão sacudir; pensar, mesmo que de relance, que não sabe onde está nem o que lê; desconfiar, por conta disso, do que entende por realidade e ficção (porque sabe que é tudo apenas um jeito de ler qualquer coisa), para mim o livro já funcionou.
Quando o Leonardo Piana leu o livro para escrever o texto de orelha, ele me mandou uma mensagem: “Achei muito desconfortável”. Eu sorri satisfeito, mesmo antes de ele mandar a seguir: “Eu gostei muito!”. O que eu queria saber, na verdade, mas nunca vou perguntar, é se esse desconforto produziria alguma medição num sismógrafo, mas isso é besteira. Talvez ele nunca tenha dito nada, e isso não importa muito, porque vocês sabem que o Leonardo escreveu a orelha, então toda essa história é real. E eu queria terminar esse texto dizendo exatamente isso: entre o dia em que comecei a escrever o livro e esse momento de agora, inventei diversas outras coisas, outras aconteceram de verdade, mas nunca mais beijei ninguém. Você quer mesmo saber o que aconteceu?
Assista ao Booktrailer.
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