Era uma blusa de frio com listas azuis e marrons. Lembro que tinha um toque meio seco, mas era de lã ou coisa parecida, aquecia bem, e eu só a usava entre junho e julho, no inverno de Belo Horizonte. Em agosto já parecia demais. Na foto, eu estava bem feliz com ela, que torneava minha cintura mais do que eu gostaria, em composição com alguma calça jeans de que me lembro menos, um provável sapato fechado e aquele sorriso de quem comemorava o aniversário de vinte e poucos anos. Esses anos são especiais, geralmente pelo que ignoramos quando ainda estamos lá. Um abraço de três amigos e amigas, todos escritores. Com todos tenho contato ainda hoje. O guitarrista sumiu no mapa, o restaurante fechou faz tempo e aquela rua continua meio erma.
Um vestido vermelho, curto, com florezinhas pequenas, não sei ao certo de que cor. Uma sandália que não sei se doei, se joguei fora. Um cabelo a la garçon que nunca mais tive. Dava muito trabalho e ajudava demais no meu gingado masculino. Sem brincos, nunca usei brincos. Um sorriso escondido, discreto, meio tenso. Eu estava encostada em uma parede clara, lembro bem de onde, embora nunca mais tenha voltado lá.
Há uma memória das roupas, com os sapatos, os vestidos, as blusas, as calças. Há algumas que se mantêm no armário por décadas, não dão espaço a mais nada, mesmo quando já não cabemos nelas, nem de longe, ou quando elas saíram de moda e pareceriam muito anacrônicas. Mesmo assim, elas ficam ali, servindo de gatilho, de mote, de esperança. Umas meias que ganhei, uma blusa menor do que o necessário, os tamanhos que as pessoas pensam que temos (e nunca tivemos), os sapatos que se descolam, desprendem. Sei sobre alguns onde comprei, se o dia estava ensolarado ou chuvoso, que horas eram, o endereço da loja, a dúvida que tive, às vezes me recordo de quanto paguei. Não gosto de etiquetas, são a primeira coisa que corto, arranco, deixando menos espaço para a propaganda. Os vestidos inúteis comprados em viagens porque eram feitos de um algodão específico, com cores que não vemos aqui, com modelos quase artesanais, servem de peça de recordação, mais do que de vestimenta. As blusas com nomes de cidades, turismo, fotografia, monumentos, e o fundo da gaveta. Que me importa usar uma camisa com um nome de algum lugar que quase nada me diz? Ou as blusas finas que pareciam tão lindas na loja… e hoje parecem tão estranhas nos cabides. Nunca tive coragem de usar. Às vezes, encontro-lhes uma dona, outra dona, que as possa usar com a desenvoltura que eu não tive. Lembro das camisetas compradas na Mesbla, uma loja que não existe há décadas, mas continua fantasmagoricamente em minha memória, toda vez que passo na frente daquele edifício na área central. A jaqueta que minha mãe me deu, de cujo modelo não gostei, mas que usei porque alguns presentes são raros, são conquistas, embora não nos sintamos tão identificadas ao vesti-los. A calça que usei duas vezes, nunca mais me serviu, mas é bonita só de se ver. Uma calça qualquer, de moletom, que adquiri na seção masculina da loja de departamento, e que hoje serviria melhor ao meu filho. Puída, gasta, com bolinhas, limpa, pronta para mais um dia de chuva e tevê.
Às vezes, olhando as fotos, identifico a roupa. Penso: onde está isso? Lembro que doei, que joguei fora, que alguém levou ou que está num fundo de armário, apenas como metonímia de uma situação, de um tempo, de um dia. Pode ser que eu me lembre, ao revés, de que roupa usava num determinado momento muito importante. Acontece: nesse dia, eu vestia esta blusa azul, lembro que deixei pingar mostarda nela. Nesse dia, perdi na enxurrada e na lama esta sapatilha preta, de couro, nunca mais foi a mesma. Desta feita, eu estava com a jaqueta de couro vinho, e, quando nos abraçamos, ele sentiu o cheiro de pele que ela tinha, uma jaqueta argentina. Pus na máquina, para lavar, minha blusa vermelha de gola alta. Imediatamente me lembrei daquele teatro de luzes apagadas, daquelas pessoas todas ao redor, de uma noite feliz. Quase retirei a blusa, abracei-a como que a guardar um pouco do clima daquele instante. Lavá-la levaria tudo. Não levou.
Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte. Autora de livros de poesia, crônica, conto e infantojuvenis, é professora da rede federal de ensino e pesquisadora do livro e da edição. Pela Relicário, publicou Álbum (2018).
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COLUNA MARCA PÁGINA
ROUPA, MEMÓRIA
por Ana Elisa Ribeiro
Era uma blusa de frio com listas azuis e marrons. Lembro que tinha um toque meio seco, mas era de lã ou coisa parecida, aquecia bem, e eu só a usava entre junho e julho, no inverno de Belo Horizonte. Em agosto já parecia demais. Na foto, eu estava bem feliz com ela, que torneava minha cintura mais do que eu gostaria, em composição com alguma calça jeans de que me lembro menos, um provável sapato fechado e aquele sorriso de quem comemorava o aniversário de vinte e poucos anos. Esses anos são especiais, geralmente pelo que ignoramos quando ainda estamos lá. Um abraço de três amigos e amigas, todos escritores. Com todos tenho contato ainda hoje. O guitarrista sumiu no mapa, o restaurante fechou faz tempo e aquela rua continua meio erma.
Um vestido vermelho, curto, com florezinhas pequenas, não sei ao certo de que cor. Uma sandália que não sei se doei, se joguei fora. Um cabelo a la garçon que nunca mais tive. Dava muito trabalho e ajudava demais no meu gingado masculino. Sem brincos, nunca usei brincos. Um sorriso escondido, discreto, meio tenso. Eu estava encostada em uma parede clara, lembro bem de onde, embora nunca mais tenha voltado lá.
Às vezes, olhando as fotos, identifico a roupa. Penso: onde está isso? Lembro que doei, que joguei fora, que alguém levou ou que está num fundo de armário, apenas como metonímia de uma situação, de um tempo, de um dia. Pode ser que eu me lembre, ao revés, de que roupa usava num determinado momento muito importante. Acontece: nesse dia, eu vestia esta blusa azul, lembro que deixei pingar mostarda nela. Nesse dia, perdi na enxurrada e na lama esta sapatilha preta, de couro, nunca mais foi a mesma. Desta feita, eu estava com a jaqueta de couro vinho, e, quando nos abraçamos, ele sentiu o cheiro de pele que ela tinha, uma jaqueta argentina. Pus na máquina, para lavar, minha blusa vermelha de gola alta. Imediatamente me lembrei daquele teatro de luzes apagadas, daquelas pessoas todas ao redor, de uma noite feliz. Quase retirei a blusa, abracei-a como que a guardar um pouco do clima daquele instante. Lavá-la levaria tudo. Não levou.
Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte. Autora de livros de poesia, crônica, conto e infantojuvenis, é professora da rede federal de ensino e pesquisadora do livro e da edição. Pela Relicário, publicou Álbum (2018).
4 respostas para “COLUNA MARCA PÁGINA”
ana paula dacota
Linda crônica! Roupas são nossas segundas “peles”, como marcam nossas memórias! Adorei!
Elcy Menezes
🥰 amei
Pingback: Coluna no Blog da Relicário - Ana Elisa Ribeiro
Jeanice Rodrigues Ferreira
As roupas se impregnam daquilo que somos dos nossos sentimentos e ilusões.
👗❤️
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