“PENSAR A RELAÇÃO ENTRE HUMANOS E ANIMAIS A PARTIR DA PERSPECTIVA AFRO-DIASPÓRICA É COMPREENDER QUE CADA SER TEM UMA INTELIGÊNCIA PRÓPRIA”
Convidada Sara Lambranho
Entrevista por Michelle Strzoda
Uma espécie de investigação visual e literária sobre a morte, o branco e a ancestralidade, o livro de estreia de Sara Lambranho, Guiné, propõe uma cosmologia onde a finitude é trânsito e o desenho em nanquim é fio condutor de cura.
Obra que marca um encontro profundo entre as artes visuais de Sara Lambranho e a escrita de Tom Nóbrega, longe de ser apenas um livro ilustrado, Guiné se apresenta como um campo comum de criação onde imagem e palavra operam em simbiose para investigar o luto, a metamorfose e os ciclos da vida sob a luz das tradições afro-diaspóricas. É com essa conexão inspirada na cultura iorubá que nasce esta história, passada em uma cidade africana. Uma meditação inspirada em um itã (relato mítico) iorubá, Guiné é uma imersão nos ciclos da existência: o nascimento, a queda e o renascimento.
A publicação utiliza desenhos em nanquim e guache para dar corpo a um diálogo entre o humano e o sagrado, entre o medo da finitude e a esperança depositada em Oxalá. Com ele, o surgimento da galinha-d’angola como gesto simbólico de resistência à morte.
Guiné é um livro-amuleto. Para lermos com os olhos e com o espírito, e para nos lembrar que, na natureza, nada se perde, tudo se transforma em semente.
Com a participação de um time de convidados especiais, Sara realiza em 28 de fevereiro o primeiro evento de lançamento do livro, em Belo Horizonte, na Livraria Jenipapo.
Relicário: Em Guiné, você propõe que “morrer é apenas uma forma de cair”. Como você traduziu visualmente essa ideia de queda que não é um impacto final, mas um movimento de transformação? O traço do nanquim buscou mais a gravidade ou a leveza desse instante?
Sara Lambranho: Em Guiné, a morte não é ruptura, mas passagem: um trânsito que reinscreve a energia de quem partiu no território. Visualmente, busquei construir imagens em que a queda atravessa diferentes esferas da vida na cidade — humanos, plantas e animais. As hachuras feitas com caneta nanquim criam um ritmo e imprimem um movimento contínuo, como um pulsar interno nos elementos, conectando os seres em uma relação permanente.
Relicário: O giz branco, o ovo e a pena são elementos centrais do itã e da iconografia de Oxalá. Como foi o desafio técnico e simbólico de trabalhar com o branco sobre o papel? Você enxerga o vazio da página como silêncio ou como o próprio espaço onde a vida recomeça?
SL: O desafio de trabalhar com o branco foi menos técnico e mais simbólico. O papel já era branco — então a questão era como preservá-lo. Na cosmologia Bantu — matriz do candomblé Angola —, o branco está associado ao mundo dos mortos e dos ancestrais. Ele marca o ciclo vida-morte-renascimento e representa o estado espiritual que antecede um novo retorno. No candomblé, o uso das vestimentas brancas e a pintura de elementos circulares brancos no corpo dos iniciados — em reverência à galinha-d’angola —sinalizam o contato com essa dimensão ancestral. Por isso, sim, o vazio da página é o espaço para o novo ciclo. Enquanto o preto e o vermelho aparecem pela conexão com Omolu, divindade da cura e da doença, tema que atravessa o livro.
Relicário: A poética presente na sua narrativa visual é interpretada por Tom Nóbrega. Como se deu a “dança” entre as suas ilustrações e o texto de Tom?
SL: Os desenhos foram criados a partir do texto presente em Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi. O livro de Prandi me serviu como inspiração e base para minha narrativa visual e construção das ilustrações. A partir daí, a reinterpretação do Tom trouxe outros elementos ligados à experiência da pandemia, que nos atravessou, fazendo do livro também uma maneira de elaborar esse luto coletivo e olhar para essa maneira de entender o mundo pelo prisma da mitologia de origem africana. Às vezes, o texto expande o que a imagem sugere; em outras situações, a imagem tensiona ou silencia o que a palavra afirma. Essa troca criou um campo comum, onde nem imagem nem texto ocupam um lugar hierárquico e se complementam de forma horizontal.
“Este livro nasceu nesse cruzamento entre experiência vivida, transformação espiritual e processo criativo.”
Relicário: O livro aproxima humanos e outros animais diante da finitude. Por que, para contar essa história de origem e morte, foi necessário borrar as fronteiras entre as espécies? O que a figura do animal comunica sobre a dor que a linguagem humana, às vezes, não alcança?
SL: Para os adeptos da tradição da qual se origina o itã interpretado no livro, não existe uma separação rígida entre humanos, animais e plantas: todos compartilham axé e participam da manutenção do equilíbrio do mundo. Os seres vivos expressam a mesma matéria primordial, e essas trocas são reafirmadas por meio dos rituais. A galinha-d’angola ocupa um lugar muito especial em várias tradições afro-diaspóricas. Ela está associada à proteção, ao trânsito entre mundos e à comunicação espiritual. Pensar a relação entre humanos e animais a partir dessa perspectiva é compreender que a vida é uma rede contínua de relações. Cada ser tem uma função e uma inteligência próprias, e o convívio com os animais produz aprendizado e uma percepção menos hierárquica da existência. Criar um livro sobre esse animal, que também representa renascimento, foi uma maneira de atravessar diversos lutos de um ciclo que se fechava na minha vida — e na de muitas pessoas — com a pandemia. Falar da galinha-d’angola, com toda a simbologia que ela carrega, era para mim uma forma de acreditar em um recomeço que ainda não sabíamos se seria possível a nós, humanos.
Relicário: Publicar uma obra que trata de nascimento e a morte exige entrega. Após concluir Guiné, qual foi o maior aprendizado que o pensamento mítico iorubá deixou para a sua própria percepção sobre os ciclos de encerramento e reinício?
SL: A concepção, a criação e a própria publicação do livro acompanharam um processo íntimo de finitude e de renascimento. Nesse retorno ao Brasil, pouco antes do início da pandemia, me sentia bastante perdida, como se estivesse atravessando um território de transição. A criação foi se imbricando com o que eu estava vivendo. Tinha acabado de voltar do México, após anos, e foi um período em que participei de rituais afro-indígenas que transformaram profundamente a minha visão de mundo. Quando o livro começou a tomar forma me aproximei do candomblé Angola e iniciei um contato mais consciente com forças que também acompanham a narrativa do trabalho: Lembá, associado ao ar e à criação, e Kavungo, ligado à terra, à cura, às doenças e aos mistérios da morte. De certa maneira, este livro nasceu nesse cruzamento entre experiência vivida, transformação espiritual e processo criativo.
Sara Lambranho nasceu em Santo André, SP, em 1983. É artista multidisciplinar, designer e ilustradora. Graduada em artes visuais pela Escola Guignard (UEMG) e mestre pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), seu trabalho investiga a formação dos territórios a partir da relação dos indivíduos com a natureza, das noções de identidade e dos processos históricos de exclusão e resistência. Vive em Belo Horizonte. Guiné é seu livro de estreia.
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Relicário: O giz branco, o ovo e a pena são elementos centrais do itã e da iconografia de Oxalá. Como foi o desafio técnico e simbólico de trabalhar com o branco sobre o papel? Você enxerga o vazio da página como silêncio ou como o próprio espaço onde a vida recomeça?
SL: O desafio de trabalhar com o branco foi menos técnico e mais simbólico. O papel já era branco — então a questão era como preservá-lo. Na cosmologia Bantu — matriz do candomblé Angola —, o branco está associado ao mundo dos mortos e dos ancestrais. Ele marca o ciclo vida-morte-renascimento e representa o estado espiritual que antecede um novo retorno. No candomblé, o uso das vestimentas brancas e a pintura de elementos circulares brancos no corpo dos iniciados — em reverência à galinha-d’angola —sinalizam o contato com essa dimensão ancestral. Por isso, sim, o vazio da página é o espaço para o novo ciclo. Enquanto o preto e o vermelho aparecem pela conexão com Omolu, divindade da cura e da doença, tema que atravessa o livro.
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SL: Os desenhos foram criados a partir do texto presente em Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi. O livro de Prandi me serviu como inspiração e base para minha narrativa visual e construção das ilustrações. A partir daí, a reinterpretação do Tom trouxe outros elementos ligados à experiência da pandemia, que nos atravessou, fazendo do livro também uma maneira de elaborar esse luto coletivo e olhar para essa maneira de entender o mundo pelo prisma da mitologia de origem africana. Às vezes, o texto expande o que a imagem sugere; em outras situações, a imagem tensiona ou silencia o que a palavra afirma. Essa troca criou um campo comum, onde nem imagem nem texto ocupam um lugar hierárquico e se complementam de forma horizontal.
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