De vários anos para cá, cursos e obras sobre o que se costumou chamar de “escrita criativa” ganharam espaço não apenas nas universidades, inclusive com a oferta de pós-graduações específicas, mas em espaços livres e independentes de criação literária, na forma de oficinas esporádicas e workshops itinerantes. A “escrita criativa” está relacionada, em especial, com um modo de aprender a fazer literatura, em exercícios que talvez favoreçam a “criatividade” e até façam emergir talentos que só precisavam de um empurrãozinho.
Em uma espécie de contracorrente, surge então o que ganhou o nome, ao menos entre outros, de “escrita não criativa”, grosso modo, quando se propõe uma obra literária sem propriamente escrevê-la, mas a partir da apropriação de outros textos e mesmo de outras obras literárias. Isso parece coincidir com algum modo de fazer literatura, mas no caso da escrita não criativa, trata-se de um procedimento um tanto mais radical; Ou de uma espécie de leitura-produtiva ou de uma “curadoria” da qual nascem textos tão interessantes – embora controversos e polêmicos, eventualmente – quanto os nascidos da criação de um gênio, algo a que já estamos acostumados.
É disso que trata o livro de Leonardo Villa-Forte, Escrever sem escrever – literatura e apropriação no século XXI, publicado pela Relicário Edições, de Belo Horizonte, em parceria com a editora da PUC Rio. Villa-Forte tem experimentado a escrita não criativa, como é o caso de sua obra MixLit, publicada em blog, tornada uma instalação e constituída um de seus objetos de análise em Escrever sem escrever.
O livro conta 224 páginas, em escrita fluente e viva. Além do Prefácio e das partes finais do texto, como referências, agradecimentos e informações sobre o autor, são apresentados cinco capítulos (Inserção, O estado dos textos, O autor-curador, Não escrever, uma prática artística e Flutuação), nos quais Villa-Forte discorre sobre a produção literária nascida por meio da apropriação, não sem tratar de literatura contemporânea, questões autorais (inclusive algum aspecto jurídico) e procedimentos que tornam algumas obras da escrita não criativa dignas de análise e atenção, além do espanto que provocam por seus efeitos, afinal, literários. O autor de Escrever sem escrever faz isso por meio de exemplos – uma lista finita mas relevante, embora obviamente não exaustiva –, que exibem modos de escrever sem escrever, tanto em obras produzidas por estrangeiros, quanto por brasileiros e brasileiras (aliás, em sua maioria, autoras nacionais).
Depois de ler Escrever sem escrever – literatura e apropriação no século XXI, algumas reações são possíveis, aliás, também durante a leitura. Muitas perguntas saltam a respeito de trabalhos que, não por acaso, causaram polêmicas e outros efeitos desejáveis aos artistas, como livros feitos a partir dos recortes de outros livros; ou livros expandidos de outros muito famosos (valendo inclusive processos judiciais e pendengas públicas); textos produzidos a partir de buscas no Google ou de placas de rua; entre outros expedientes que não costumamos associar ao ato criativo genial que geralmente atribuímos à escrita literária. Uma reação à leitura da obra é ter ideias e mais ideias de textos, livros, exposições e oficinas, com muito menos pudor em relação a obras autorais; ou seja, certa desmistificação bem-vinda do gênio criativo ou do senso comum sobre o que seja literário. Uma outra reação ainda é confundir-se de vez com tudo e ter dificuldade até de chamar Villa-Forte de “autor”, já que estão em xeque na discussão conceitos e concepções que estão na base de nossas ideias de autoria, livro, obra, arte, entre outras. Bem, também é possível discordar de tudo e imaginar que a escrita não criativa seja uma onda contrária à escrita literária como a conhecemos (ou achamos que conhecemos). No entanto, nas Flutuações finais, Leonardo Villa-Forte se aproxima (e nos aproxima) exatamente da noção de que tais modos de fazer não sejam antagônicos, excludentes.
Obviamente, num livro como este seria praticamente impossível não falar de edição. Nos capítulos finais, o contexto de publicação de várias obras relevantes da escrita não criativa é explicitado, trazendo ao primeiro plano as condições de produção e de circulação desses livros, o que não apenas tem mérito como nos ajuda a jogar luzes sobre a importância das editoras ditas pequenas ou artesanais nesse cenário da experimentação literária e editorial (que, afinal, geralmente andam juntas e desafiam o engenho humano).
Escrever sem escrever é um ensaio muito informativo e muito reflexivo sobre literatura e modos de fazer em nosso século. A edição cuidadosa – marca da Relicário Edições – torna a geralmente indigesta forma acadêmica dos textos apenas uma memória vaga. Um dos expedientes do projeto gráfico para fazer jus ao livro, ao tema e à aproximação com o leitor é tornar todas as citações em textos integrados ao texto principal, com uma ligeira (mas perceptível) diferença de cor, de retícula, favorecendo uma mistura da voz de Villa-Forte com seus autores citados, com alguma discreta margem de diferenciação. Uma bela tacada para um livro sobre apropriação e literatura em nosso tempo.
Ana Elisa Ribeiro é escritora e professora do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens | Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais.
+ infos e vendas de “Escrever sem escrever”, clique aqui.
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Sobre “Escrever sem escrever”, de Leonardo Villa-Forte | Por Ana Elisa Ribeiro
Em uma espécie de contracorrente, surge então o que ganhou o nome, ao menos entre outros, de “escrita não criativa”, grosso modo, quando se propõe uma obra literária sem propriamente escrevê-la, mas a partir da apropriação de outros textos e mesmo de outras obras literárias. Isso parece coincidir com algum modo de fazer literatura, mas no caso da escrita não criativa, trata-se de um procedimento um tanto mais radical; Ou de uma espécie de leitura-produtiva ou de uma “curadoria” da qual nascem textos tão interessantes – embora controversos e polêmicos, eventualmente – quanto os nascidos da criação de um gênio, algo a que já estamos acostumados.
É disso que trata o livro de Leonardo Villa-Forte, Escrever sem escrever – literatura e apropriação no século XXI, publicado pela Relicário Edições, de Belo Horizonte, em parceria com a editora da PUC Rio. Villa-Forte tem experimentado a escrita não criativa, como é o caso de sua obra MixLit, publicada em blog, tornada uma instalação e constituída um de seus objetos de análise em Escrever sem escrever.
O livro conta 224 páginas, em escrita fluente e viva. Além do Prefácio e das partes finais do texto, como referências, agradecimentos e informações sobre o autor, são apresentados cinco capítulos (Inserção, O estado dos textos, O autor-curador, Não escrever, uma prática artística e Flutuação), nos quais Villa-Forte discorre sobre a produção literária nascida por meio da apropriação, não sem tratar de literatura contemporânea, questões autorais (inclusive algum aspecto jurídico) e procedimentos que tornam algumas obras da escrita não criativa dignas de análise e atenção, além do espanto que provocam por seus efeitos, afinal, literários. O autor de Escrever sem escrever faz isso por meio de exemplos – uma lista finita mas relevante, embora obviamente não exaustiva –, que exibem modos de escrever sem escrever, tanto em obras produzidas por estrangeiros, quanto por brasileiros e brasileiras (aliás, em sua maioria, autoras nacionais).
Depois de ler Escrever sem escrever – literatura e apropriação no século XXI, algumas reações são possíveis, aliás, também durante a leitura. Muitas perguntas saltam a respeito de trabalhos que, não por acaso, causaram polêmicas e outros efeitos desejáveis aos artistas, como livros feitos a partir dos recortes de outros livros; ou livros expandidos de outros muito famosos (valendo inclusive processos judiciais e pendengas públicas); textos produzidos a partir de buscas no Google ou de placas de rua; entre outros expedientes que não costumamos associar ao ato criativo genial que geralmente atribuímos à escrita literária. Uma reação à leitura da obra é ter ideias e mais ideias de textos, livros, exposições e oficinas, com muito menos pudor em relação a obras autorais; ou seja, certa desmistificação bem-vinda do gênio criativo ou do senso comum sobre o que seja literário. Uma outra reação ainda é confundir-se de vez com tudo e ter dificuldade até de chamar Villa-Forte de “autor”, já que estão em xeque na discussão conceitos e concepções que estão na base de nossas ideias de autoria, livro, obra, arte, entre outras. Bem, também é possível discordar de tudo e imaginar que a escrita não criativa seja uma onda contrária à escrita literária como a conhecemos (ou achamos que conhecemos). No entanto, nas Flutuações finais, Leonardo Villa-Forte se aproxima (e nos aproxima) exatamente da noção de que tais modos de fazer não sejam antagônicos, excludentes.
Obviamente, num livro como este seria praticamente impossível não falar de edição. Nos capítulos finais, o contexto de publicação de várias obras relevantes da escrita não criativa é explicitado, trazendo ao primeiro plano as condições de produção e de circulação desses livros, o que não apenas tem mérito como nos ajuda a jogar luzes sobre a importância das editoras ditas pequenas ou artesanais nesse cenário da experimentação literária e editorial (que, afinal, geralmente andam juntas e desafiam o engenho humano).
Escrever sem escrever é um ensaio muito informativo e muito reflexivo sobre literatura e modos de fazer em nosso século. A edição cuidadosa – marca da Relicário Edições – torna a geralmente indigesta forma acadêmica dos textos apenas uma memória vaga. Um dos expedientes do projeto gráfico para fazer jus ao livro, ao tema e à aproximação com o leitor é tornar todas as citações em textos integrados ao texto principal, com uma ligeira (mas perceptível) diferença de cor, de retícula, favorecendo uma mistura da voz de Villa-Forte com seus autores citados, com alguma discreta margem de diferenciação. Uma bela tacada para um livro sobre apropriação e literatura em nosso tempo.
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