Há alguns anos, venho me dedicando a pequenas iniciativas que têm por objetivo divulgar literatura brasileira contemporânea onde moro. Não se trata de bondade ou altruísmo, já que são ações voluntárias. Minha relação com esse movimento é pautada no esforço da permanência de uma língua que é a minha própria identidade.
A geografia me complica
Em 2001 saí do Brasil rumo a Londres. Era uma jovem de vinte e poucos com considerável obsessão por Shakespeare – característica que permanece – e tinha como meta fazer um mestrado no país do Bardo. Já vinha me envolvendo de forma cada vez mais apaixonada com a literatura. Tive professores na Faculdade de Letras que mudaram a minha vida, abriram meus olhos e me acenderam uma fagulha. Edimilson Pereira de Almeida, Godofredo de Oliveira Neto, Eucanaã Ferraz, Ronaldo Lima Lins, Sonia Zyngier foram algumas das mentes que ministravam aulas de literatura. Na minha ingenuidade em planejar o futuro, eu iria para a Inglaterra, faria um mestrado em Shakespeare e daria aulas. Mas a vida aconteceu, e os planos mudaram. O mestrado sobre Shakespeare virou um mestrado em Artes e Herança Cultural.
A única certeza que eu trouxe comigo foi a língua portuguesa. Paradoxalmente, essa essência é ameaçada todos os dias pela imponência do inglês. Não há como competir, e o português acabou sendo uma corda que me segura para eu não me atirar do penhasco – seria mais fácil me deixar seduzir e virar inglesa de vez. Em vinte anos como imigrante, a necessidade de contato com o português ficava cada vez mais crucial – perigava extinção. No meu entorno, só ingleses. E, como ingleses, quase não dominam um segundo idioma. Escrever, refinar as letras, trabalhar a língua materna têm significados e importância profundos em movimentos rotineiros, como anotar ideias, fazer listas de supermercado, rabiscar planos e impossibilidades.
A geografia me complica. Meu desejo é estar perto das narrativas que fazem os autores brasileiros de hoje. Às vezes, quero estar perto até mesmo dos próprios autores. Viver no exterior é como criar uma língua em cativeiro, mas pelo menos ela respira, está viva. O desejo de não perdê-la de vista é o que possibilita esse movimento e essa fome pelos livros.
Livros que viajam
A necessidade de me atualizar em relação à literatura produzida no Brasil lotava minhas malas a cada retorno à Inglaterra. Numa dessas viagens, passei a imaginar que, assim como eu, deveriam existir leitores ávidos por conhecer mais sobre a cena literária brasileira atual, escrita no nosso português. Achei razoável abrir uma livraria.
As iniciativas para sustentar meu próprio idioma tão longe do país de origem acabam mesmo tendo o poder de contaminar, no melhor dos sentidos, leitores com perfil semelhante ao meu. Pedidos de livros foram feitos de todo canto da Europa. Nunca me esqueci de uma compradora que pediu oito títulos de uma vez, cujo endereço era numa parte remota da Escócia. Quem poderia ser aquela pessoa? Para lá foram os livros. A partir daí eles passam a ter vida própria, inusitada e imprevisível. Os livros viajam por cidades, países, e eu ajudo nisso com prazer. De fato me alegra empacotar títulos de colegas que tantas vezes eu nem conheço, para enviá-los ao mundo. É bonito. A partir da livraria, surgiram outras ideias e o português começou a ganhar mais espaço, pelo menos na minha estante.
Talvez o grande desafio seja encontrar mais ficção brasileira traduzida na Europa. Mesmo que não seja meu foco trabalhar nisso, é uma dinâmica curiosa: veem-se clássicos e alguns bons títulos traduzidos, às vezes veem-se histórias que simplesmente gozam de prestígio editorial e só. É problemático porque o que é traduzido acaba permanecendo como o conceito que se cria sobre o que e qual é “a” literatura brasileira contemporânea. Muitos autores jamais terão chance de ver suas obras traduzidas mundo afora. Isso, para tantos que escrevem tão bem, é uma injustiça. Mas, a subjetividade, que é a natureza desse meio, deve prevalecer e o que é bom não é unânime.
Há pequenas e trabalhosas iniciativas: um clube de tradução foi feito em ampla colaboração entre autores e tradutores; a Capitolina Revista vem publicando textos com curadoria pautada em critérios como representatividade. É bacana quando as revistas de literatura pelo mundo são mencionadas. Compartilhar essas publicações e suas produções ajuda no sentido de espalhar essas sementes em várias direções.
Nara Vidal é natural de Guarani, Minas Gerais, e vive em Londres. Escritora e tradutora, seu romance de estreia, Sorte, recebeu o Prêmio Oceanos. Seu livro mais recente, Mapas para desaparecer (contos), foi publicado em 2020. Por seu trabalho de divulgação da literatura brasileira no exterior, conquistou o Prêmio APCA 2021.
URUÇUMIRIM VIVE por Rafael Freitas da Silva Repousa exatamente na mesa do prefeito da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro um decreto, com verificação fidedigna do estágio de localização do documento por meio do acesso ao protocolo público, uma folha de papel que tem o poder de transcender a história e a identidade …
A ESCRITA COMO DESAFIO E APERFEIÇOAMENTO DO ERRO Por Ieda Magri & Felipe Charbel No ano passado organizamos com o Rafael Gutiérrez uma coletânea de ensaios para a Relicário. A ideia era simples: cada um escreveria sobre o que bem entendesse, da forma como desejasse. Foi nossa única orientação. Se fosse para o livro …
Quem quer ser professor? Ana Elisa Ribeiro Brinquei de aula muitas vezes na vida. Brinquei também de sorteio, jogando cartinhas para o alto e pegando uma delas no ar para ler ao meu público imaginário. Não era influência da Xuxa. Era por conta da apresentadora de um programa local, de quem provavelmente quase ninguém se …
UMA FORMA DE CORAGEM PARA A ESCRITA por Rafael Gallo Tem sido difícil escrever. Não há uma Grande Guerra em curso, ninguém que eu amo foi tirado de mim, nem tenho sido presa de algum vício, mas ainda assim tem sido difícil escrever. Provavelmente, por viver tempos nos quais a ameaça à vida se …
COLUNA LIVRE
EGOÍSMO MEU
Por Nara Vidal
A geografia me complica
Em 2001 saí do Brasil rumo a Londres. Era uma jovem de vinte e poucos com considerável obsessão por Shakespeare – característica que permanece – e tinha como meta fazer um mestrado no país do Bardo. Já vinha me envolvendo de forma cada vez mais apaixonada com a literatura. Tive professores na Faculdade de Letras que mudaram a minha vida, abriram meus olhos e me acenderam uma fagulha. Edimilson Pereira de Almeida, Godofredo de Oliveira Neto, Eucanaã Ferraz, Ronaldo Lima Lins, Sonia Zyngier foram algumas das mentes que ministravam aulas de literatura. Na minha ingenuidade em planejar o futuro, eu iria para a Inglaterra, faria um mestrado em Shakespeare e daria aulas. Mas a vida aconteceu, e os planos mudaram. O mestrado sobre Shakespeare virou um mestrado em Artes e Herança Cultural.
A única certeza que eu trouxe comigo foi a língua portuguesa. Paradoxalmente, essa essência é ameaçada todos os dias pela imponência do inglês. Não há como competir, e o português acabou sendo uma corda que me segura para eu não me atirar do penhasco – seria mais fácil me deixar seduzir e virar inglesa de vez. Em vinte anos como imigrante, a necessidade de contato com o português ficava cada vez mais crucial – perigava extinção. No meu entorno, só ingleses. E, como ingleses, quase não dominam um segundo idioma. Escrever, refinar as letras, trabalhar a língua materna têm significados e importância profundos em movimentos rotineiros, como anotar ideias, fazer listas de supermercado, rabiscar planos e impossibilidades.
A geografia me complica. Meu desejo é estar perto das narrativas que fazem os autores brasileiros de hoje. Às vezes, quero estar perto até mesmo dos próprios autores. Viver no exterior é como criar uma língua em cativeiro, mas pelo menos ela respira, está viva. O desejo de não perdê-la de vista é o que possibilita esse movimento e essa fome pelos livros.
Livros que viajam
As iniciativas para sustentar meu próprio idioma tão longe do país de origem acabam mesmo tendo o poder de contaminar, no melhor dos sentidos, leitores com perfil semelhante ao meu. Pedidos de livros foram feitos de todo canto da Europa. Nunca me esqueci de uma compradora que pediu oito títulos de uma vez, cujo endereço era numa parte remota da Escócia. Quem poderia ser aquela pessoa? Para lá foram os livros. A partir daí eles passam a ter vida própria, inusitada e imprevisível. Os livros viajam por cidades, países, e eu ajudo nisso com prazer. De fato me alegra empacotar títulos de colegas que tantas vezes eu nem conheço, para enviá-los ao mundo. É bonito. A partir da livraria, surgiram outras ideias e o português começou a ganhar mais espaço, pelo menos na minha estante.
Talvez o grande desafio seja encontrar mais ficção brasileira traduzida na Europa. Mesmo que não seja meu foco trabalhar nisso, é uma dinâmica curiosa: veem-se clássicos e alguns bons títulos traduzidos, às vezes veem-se histórias que simplesmente gozam de prestígio editorial e só. É problemático porque o que é traduzido acaba permanecendo como o conceito que se cria sobre o que e qual é “a” literatura brasileira contemporânea. Muitos autores jamais terão chance de ver suas obras traduzidas mundo afora. Isso, para tantos que escrevem tão bem, é uma injustiça. Mas, a subjetividade, que é a natureza desse meio, deve prevalecer e o que é bom não é unânime.
Há pequenas e trabalhosas iniciativas: um clube de tradução foi feito em ampla colaboração entre autores e tradutores; a Capitolina Revista vem publicando textos com curadoria pautada em critérios como representatividade. É bacana quando as revistas de literatura pelo mundo são mencionadas. Compartilhar essas publicações e suas produções ajuda no sentido de espalhar essas sementes em várias direções.
Nara Vidal é natural de Guarani, Minas Gerais, e vive em Londres. Escritora e tradutora, seu romance de estreia, Sorte, recebeu o Prêmio Oceanos. Seu livro mais recente, Mapas para desaparecer (contos), foi publicado em 2020. Por seu trabalho de divulgação da literatura brasileira no exterior, conquistou o Prêmio APCA 2021.
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