Caiu a ficha. Um dia, depois de anos e anos escrevendo e publicando poesia e prosa, me dei conta de que nunca havia sido editada por uma mulher. Tive experiências diversas e interessantes em editoras dirigidas por homens, em estados diferentes do Brasil, com livros menos e menos-menos conhecidos, com aspectos gráfico-editoriais também diversos, mas, exceto na publicação de obras para crianças, eu jamais havia lidado com uma editora que lesse os textos, criticasse, elogiasse, organizasse, cortasse, inserisse, dialogasse comigo, ambas em busca de um livro tão interessante quanto possível. Foi aí que procurei a Maíra.
Maíra Nassif era já bem conhecida no meio cultural aqui por estas bandas. Aqui e ali, já havíamos nos cruzado, sempre cordialmente e com seriedade, coisa importante em quase todo trabalho. Pus minha mira na Relicário Edições desde que ela começou, com um tom e um jeito de fazer que me chamavam atenção. Em primeiro lugar, ela me despertou como pesquisadora da edição, ligada duplamente nisso: as questões dos livros e das mulheres nesse campo; depois, como poeta, no momento em que notei que a experiência com editoras (mulheres) não era assim tão acessível. Nem para mim nem para elas.
Caminhos sondados
Comecei a publicar nos anos 1990. Conversei com muita gente, troquei muita ideia, mas na hora das decisões, na hora do dinheiro, tudo navegava por um mar pouco ou nada feminino. Mulheres revisaram meus livros, projetaram graficamente, prepararam, mas não davam entrevistas nem falavam sobre a literatura contemporânea brasileira e seus caminhos.
O cenário mudou. As fichas vão caindo para todos e todas, ou quase. Uma avalanche de mulheres incríveis surge (porque isso andava mesmo represado) tomando decisões e pondo o dedo nas feridas. A despeito da existência de uma Maria Mazarello, por exemplo, que edita autorias negras desde o final dos anos 1970, ou de outras profissionais da edição que fizeram a mesma coisa, desde diversas regiões deste país, a roda mais aparente e visível da literatura contemporânea tem muita testosterona e poucos sotaques.
Quando se tem interesse em pesquisar, é possível ver, nas entranhas da edição, um incontável contingente de mulheres editoras. A questão é ver além, ver atrás, ver do outro lado, porque a moeda costuma aparecer de um lado só. Ou costumava.
Original
Quando fui atrás de Maíra Nassif, queria ter uma experiência diferente, mas que eu já deveria ter tido muito antes. Queria que ela me prestigiasse e queria prestigiá-la com minha confiança e meu desejo de fazer um bom livro de poesia.
Em 12 de junho de 2017, depois de outras conversas com a editora da Relicário, por outros motivos, mas sempre culturais, enviei uma mensagem breve dizendo que logo mandaria um original chamado Álbum. Provavelmente, num encontro pessoal com Maíra, devemos ter falado nisso, porque aquele e-mail tem cara de continuação de conversa. E foi assim que ela me respondeu: “E-mail armadíssimo, estou aguardando cheia de curiosidade! Pode mandar assim que quiser!”. Daí em diante, passamos a nos informar sobre as condições de publicação, o mercado editorial, a poesia etc.
Aí vai o arquivo do Álbum. Você é a primeira e única pessoa que o vê. Foi pro prêmio Manaus, ganhou e ficou amarrado lá. Levaram meses para desamarrar. Agora está aí. E eu queria demais que fosse editado por mulheres. Quem sabe? Esse material aí pode ser mexido, digo, editado. Poemas podem ser excluídos e eu tenho outros posteriores, produzidos sob a mesma ideia de falar de fotografias.
Foi assim que entreguei um original à editora e que ela me devolveu com um sim, pedidos, ajustes, uma leitura atenciosa, um encontro num café para excluirmos textos, inserirmos outros, pensarmos a capa, o projeto gráfico, decidirmos sobre elementos do miolo, escolhermos a foto que, afinal, ficou lá. Foi assim a experiência firme e propositiva de publicar um primeiro poemário com uma mulher-que-edita, depois de outros seis livros (de poesia) anteriores, todos sob a batuta de editores.
Viajar longe
O que devo dizer? Que meus livros anteriores compõem minha paleta de experiências e experimentações editoriais; que editar com editores sempre foi viável e muito mais provável; que fiquei satisfeita, tanto quanto possível em poesia e neste país, com as publicações; que fiz edição independente desde sempre; que publiquei em coletivos e individualmente; que fiz autoedição; que foi sempre muito colaborativo; mas… faltava encontrar as mulheres nesta arena.
Maíra deu notícia do lançamento do Álbum para abril de 2018. Com ele, viajei longe. A Relicário publica lento, publica com cuidado, leva um tempo fazendo o livro, criando desejos, acariciando a cria, promovendo, abrindo espaços, compondo um catálogo pinçado, colhido, afagado. Álbum é meu livro mais colado aos afetos familiares. Me dá retornos até hoje, na forma de gente lendo, gente comentando, estudando, declamando. Gente que eu não conheço, inclusive. E nisso tem parte o trabalho editorial, é claro, embora esse aspecto seja menos claro do que parece.
Editar é verbo, edição é feminino. É como um formigueiro, em que as mulheres estão lá dentro, embaixo da terra, trabalhando sem parar, mas quem voa é o zangão. Não. Neste nosso século, temos rainhas, e elas voam longe e bem.
Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte. Autora de livros de poesia, crônica, conto e infantojuvenis, é professora da rede federal de ensino e pesquisadora do livro e da edição. Pela Relicário, publicou Álbum (2018).
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COLUNA MARCA PÁGINA
PUBLICAR UM LIVRO, MAIS UMA VEZ
por Ana Elisa Ribeiro
Pintura de Darren Thompson.
Caiu a ficha. Um dia, depois de anos e anos escrevendo e publicando poesia e prosa, me dei conta de que nunca havia sido editada por uma mulher. Tive experiências diversas e interessantes em editoras dirigidas por homens, em estados diferentes do Brasil, com livros menos e menos-menos conhecidos, com aspectos gráfico-editoriais também diversos, mas, exceto na publicação de obras para crianças, eu jamais havia lidado com uma editora que lesse os textos, criticasse, elogiasse, organizasse, cortasse, inserisse, dialogasse comigo, ambas em busca de um livro tão interessante quanto possível. Foi aí que procurei a Maíra.
Maíra Nassif era já bem conhecida no meio cultural aqui por estas bandas. Aqui e ali, já havíamos nos cruzado, sempre cordialmente e com seriedade, coisa importante em quase todo trabalho. Pus minha mira na Relicário Edições desde que ela começou, com um tom e um jeito de fazer que me chamavam atenção. Em primeiro lugar, ela me despertou como pesquisadora da edição, ligada duplamente nisso: as questões dos livros e das mulheres nesse campo; depois, como poeta, no momento em que notei que a experiência com editoras (mulheres) não era assim tão acessível. Nem para mim nem para elas.
Caminhos sondados
Comecei a publicar nos anos 1990. Conversei com muita gente, troquei muita ideia, mas na hora das decisões, na hora do dinheiro, tudo navegava por um mar pouco ou nada feminino. Mulheres revisaram meus livros, projetaram graficamente, prepararam, mas não davam entrevistas nem falavam sobre a literatura contemporânea brasileira e seus caminhos.
O cenário mudou. As fichas vão caindo para todos e todas, ou quase. Uma avalanche de mulheres incríveis surge (porque isso andava mesmo represado) tomando decisões e pondo o dedo nas feridas. A despeito da existência de uma Maria Mazarello, por exemplo, que edita autorias negras desde o final dos anos 1970, ou de outras profissionais da edição que fizeram a mesma coisa, desde diversas regiões deste país, a roda mais aparente e visível da literatura contemporânea tem muita testosterona e poucos sotaques.
Quando se tem interesse em pesquisar, é possível ver, nas entranhas da edição, um incontável contingente de mulheres editoras. A questão é ver além, ver atrás, ver do outro lado, porque a moeda costuma aparecer de um lado só. Ou costumava.
Original
Quando fui atrás de Maíra Nassif, queria ter uma experiência diferente, mas que eu já deveria ter tido muito antes. Queria que ela me prestigiasse e queria prestigiá-la com minha confiança e meu desejo de fazer um bom livro de poesia.
Em 12 de junho de 2017, depois de outras conversas com a editora da Relicário, por outros motivos, mas sempre culturais, enviei uma mensagem breve dizendo que logo mandaria um original chamado Álbum. Provavelmente, num encontro pessoal com Maíra, devemos ter falado nisso, porque aquele e-mail tem cara de continuação de conversa. E foi assim que ela me respondeu: “E-mail armadíssimo, estou aguardando cheia de curiosidade! Pode mandar assim que quiser!”. Daí em diante, passamos a nos informar sobre as condições de publicação, o mercado editorial, a poesia etc.
Aí vai o arquivo do Álbum. Você é a primeira e única pessoa que o vê. Foi pro prêmio Manaus, ganhou e ficou amarrado lá. Levaram meses para desamarrar. Agora está aí. E eu queria demais que fosse editado por mulheres. Quem sabe? Esse material aí pode ser mexido, digo, editado. Poemas podem ser excluídos e eu tenho outros posteriores, produzidos sob a mesma ideia de falar de fotografias.
Foi assim que entreguei um original à editora e que ela me devolveu com um sim, pedidos, ajustes, uma leitura atenciosa, um encontro num café para excluirmos textos, inserirmos outros, pensarmos a capa, o projeto gráfico, decidirmos sobre elementos do miolo, escolhermos a foto que, afinal, ficou lá. Foi assim a experiência firme e propositiva de publicar um primeiro poemário com uma mulher-que-edita, depois de outros seis livros (de poesia) anteriores, todos sob a batuta de editores.
Viajar longe
Maíra deu notícia do lançamento do Álbum para abril de 2018. Com ele, viajei longe. A Relicário publica lento, publica com cuidado, leva um tempo fazendo o livro, criando desejos, acariciando a cria, promovendo, abrindo espaços, compondo um catálogo pinçado, colhido, afagado. Álbum é meu livro mais colado aos afetos familiares. Me dá retornos até hoje, na forma de gente lendo, gente comentando, estudando, declamando. Gente que eu não conheço, inclusive. E nisso tem parte o trabalho editorial, é claro, embora esse aspecto seja menos claro do que parece.
Editar é verbo, edição é feminino. É como um formigueiro, em que as mulheres estão lá dentro, embaixo da terra, trabalhando sem parar, mas quem voa é o zangão. Não. Neste nosso século, temos rainhas, e elas voam longe e bem.
Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte. Autora de livros de poesia, crônica, conto e infantojuvenis, é professora da rede federal de ensino e pesquisadora do livro e da edição. Pela Relicário, publicou Álbum (2018).
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ALEGRIA E RESISTÊNCIA por Adriana Lisboa A travessia destes tempos pode parecer, muitas vezes, o escuro interior de um túnel de extensão indefinida. Noutros momentos, é um rio de terceiras margens. Ou então um sertão-deserto de pendor bíblico, com a diferença de que, na fórmula do ódio contemporâneo, os deuses andam arredios, sem saber …